Novas políticas públicas de inclusão digital
Em entrevista, Rollemberg demonstra preocupação com a qualificação dos educadores para usar a internet como instrumento de inclusão social
Rollemberg:“Todos os serviços públicos têm que estar facilmente acessíveis pela internet”. Foto: Chico Costa
Atento às velozes mudanças sociais e econômicas trazidas pela Sociedade da Informação, o deputado federal Rodrigo Rollemberg (PSB-DF) apontou em entrevista à Liderança do PSB, na Câmara dos Deputados, quais as principais medidas que devem ser tomadas pelo Governo para que o Brasil não se distancie dos países ricos devido à exclusão digital.
Para o parlamentar, não basta que a sociedade esteja instrumentalizada com computadores. “É um grande desafio transformar inclusão digital em inclusão social, para não aumentar as diferenças sociais e regionais entre aqueles que dominam as novas tecnologias e aqueles que estão cada vez mais distantes dela”.
Atualmente 22% da população brasileira têm acesso à internet, mas só 3% acessam com banda larga, conexão de alta velocidade. Ele defende que a internet faça parte do dia-a-dia das pessoas, a começar pela escola. Já governo deve facilitar a vida do cidadão com atendimentos virtuais e ampliar a conectividade, seja para marcar uma consulta médica ou matricular um filho na escola. “Todos os serviços públicos têm que estar facilmente acessíveis pela internet”.
Historiador, formado pela Universidade de Brasília (UnB), Rollemberg afirma com propriedade que a Sociedade da Informação - caracterizada pela capacidade dos seus membros de obter e compartilhar informação, instantaneamente, de qualquer lugar - já está fazendo e fará, ainda mais, uma revolução na educação e trará à luz do dia uma identidade brasileira ainda não revelada por falta de veículos.
Em 2005, foi apontado na Cúpula Mundial sobre a Sociedade da Informação, da ONU, que uma das iniciativas que contribuiu para diminuir o abismo digital entre países desenvolvidos e subdesenvolvidos seria a produção de tecnologia de baixo custo. Hoje isso é uma realidade para os brasileiros?
Nós já avançamos muito na inclusão digital com o programa Computador Para Todos, com a redução de impostos sobre os computadores e com os financiamentos feitos pelo governo federal. Atualmente 22% da população brasileira têm acesso à internet. Mas isso precisa ser ampliado para que um número cada vez maior brasileiros tenha acesso a um computador e, conseqüentemente, mais pessoas estejam incluídas em todas as possibilidades oferecidas por esta tecnologia, diminuindo a distância social entre os países.
O barateamento dos computadores vai realmente se converter em inclusão digital?
Não só isso, mas é um elemento fundamental. Recentemente uma pesquisa realizada em Brasília indicou que nas cidades satélites mais pobres do Distrito Federal, 35% das pessoas acessam a internet, mas em lan houses ou telecentros. Se essas pessoas tiverem acesso a um computador de baixo custo, sem dúvida nenhuma elas poderão ser conectar sempre que quiserem e acharem necessário. O barateamento da tecnologia contribui para isso. No entanto, o governo ainda precisa ampliar a infra-estrutura de conexão. A meta do governo é que até 2010, 55 mil escolas públicas estejam conectadas com internet de alta velocidade. A partir do momento que governos municipais e estaduais provêem a conectividade em banda larga, através das diversas tecnologias disponíveis hoje, um número cada vez maior de pessoas terá facilidade de acessar a rede.
Além da preocupação com a inclusão digital, existe um segundo nível preocupação, que é o que é feito deste acesso a tecnologia? De que forma garantir que este processo se transforme em educação, informação, formação e conhecimento? Já existe alguma medida neste sentido?
É fundamental uma política de qualificação de professores para a utilização da internet como instrumento pedagógico. Isso vai aumentar muito as possibilidades do uso deste recurso de forma qualitativa e educativa. O Ministério de Ciência e Tecnologia vai lançar um grande edital de produção de conteúdo brasileiro para internet. Essa é outra questão que deve ser grifada, têm-se ampliado o acesso, mas há pouco conteúdo educativo e científico na internet em português. Então eu aponto essas duas preocupações, a qualificação dos educadores para usar a internet como instrumento de inclusão social e a produção de conteúdos nacionais para a internet.
O Sr. enxerga a entrada da sociedade brasileira na Sociedade da Informação como um desafio a mais na área educacional? A partir do momento que não importa mais somente o índice de alfabetização, e sim, um nível de educação que habilite o cidadão a lidar com novas fontes de tecnologia?
Esse é o grande desafio. Se nós não tivermos uma grande preocupação de transformar um programa de inclusão digital num instrumento de inclusão social, o que pode acontecer - com a velocidade de absorção das novas tecnologias – é o aumento das diferenças sociais e regionais entre aqueles que dominam as novas tecnologias e aqueles que estão cada vez mais distantes dela.
Se não houver uma preocupação, uma participação firme do governo, para garantir políticas de inclusão social através da inclusão digital, nós aprofundaremos um fosso entre os mais ricos, que têm acesso as novidades tecnológicas, quase diariamente, e aqueles que ainda não conseguem ter o acesso básico.
Por outro lado, bem utilizados, os instrumentos de tecnologia podem suprir algumas carências expressivas que contribuem muito para a baixa qualidade do ensino brasileiro. Temos uma carência enorme de professores de matemática, física, química e biologia. Um problema que pode ser sanado com aulas online.
Como habilitar a população às oportunidades econômicas que a internet oferece?
A internet tem de fazer parte do dia-a-dia das pessoas a começar pela escola. Os alunos têm que ter acesso ao computador para atividades lúdicas, como devem utilizar para atividades pedagógicas. Já o cidadão deve ser orientado e o governo deve desenvolver políticas que facilitem os atendimentos pelos programas sociais via internet. Seja para marcar uma consulta médica, fazer a matrícula de seu filho na escola. Todos os serviços públicos têm que estar facilmente acessíveis pela internet. O governo deve ainda facilitar a conectividade, precisamos acabar com a novela de contingenciamento dos recursos do Fust (Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações). Temos uma montanha de dinheiro para inclusão digital que não é utilizado porque está contigenciado. E parte desses recursos deve ser para garantir a conectividade em banda larga, porque os equipamentos estão cada vez mais baratos, se o governo garante conectividade, as facilidades oferecidas pela internet farão parte do dia-a-dia das pessoas.
O Sr. enxerga uma nova possibilidade de revelação da identidade brasileira, a partir do momento que a sociedade se apoderar de meios digitais, como instrumentos audiovisuais? Que importância isso teria, já que amplia a liberdade de expressão e a livre circulação de idéias?
A sociedade brasileira é uma das mais diversas e criativas do mundo. Nós temos um projeto do Ministério da Cultura, que iniciou em 2004 com muito sucesso, que são os Pontos de Cultura. O projeto prevê justamente isso, a instrumentalização, o treinamento e o acesso da população a recursos de estúdios, câmeras de vídeos, computadores e telecentros. Este é um aporte para o desenvolvimento e incentivo das manifestações culturais locais e regionais. Trazendo a luz do dia inúmeros talentos através das tecnologias de comunicação.
Então os meios de comunicação digital, se bem aproveitados, podem ser utilizados como espelho para a cultura brasileira?
Sem dúvida. Já vemos alguns casos de populações indígenas que conseguiram denunciar casos de exploração, invasão de madeireiros ou comercializar sua produção artesanal através da internet. O poder deste instrumento já está provado, bem utilizado pode reafirmar a cultura e libertar os povos de diversos tipos de opressão.
Letícia Alcântara - Ascom da liderança do PSB na Câmara dos Deputados - atualizado em 14/7/2008
