Atualizado em :19/07/2011
Brasilienses não confiam nos políticos
Pesquisa da UnB coordenada pelo mestre em Ciência Política Robson Pereira revela que 86% de um grupo de 1015 entrevistados não confiam nos políticos
 

Sucessivos casos de corrupção no Congresso e impunidade para políticos envolvidos em escândalos refletem no nível de descontentamento da população com seus representantes. Uma pesquisa da UnB coordenada pelo mestre em Ciência Política Robson Pereira revela que 86% de um grupo de 1015 entrevistados não confiam nos políticos. "Eles agem como se estivessem em um escritório fechado. A ‘dança da pizza’ é um exemplo disso", comenta Pereira, referindo-se ao episódio em que a deputada Ângela Guadagnin (PT-SP) comemorou a absolvição do deputado João Magno (PT-MG) no esquema do mensalão.

 

O professor aponta dois motivos principais para que a descrença da população nos parlamentares tenha chegado a esse ponto. "O corporativismo entre os políticos é absurdo. Isso gera impunidade. Além disso, há essa facilidade que um político tem de renunciar ao seu mandato para fugir da possível cassação. Depois, ele volta como se nada tivesse acontecido. Isso mostra uma falta de caráter muito grande", comenta.

 

A pesquisa foi realizada em abril e percorreu todas as cidades-satélites e Plano Piloto. Ainda que tenham estourado novos escândalos políticos depois disso, o coordenador da pesquisa não acredita que isso elevaria ainda mais o índice. "Esse índice não é pontual. Vem de muito tempo. Não é um evento isolado aqui e outro ali que vai melhorar ou piorar a confiança. Algo bem drástico deveria acontecer para que percebamos uma mudança. Mas também não tem como piorar", aponta Pereira.

 

Números da pesquisa:

 

 

Número de entrevistados – 1015

Não confiam nos políticos – 86%

Não confiam nos partidos – 77%

Não confiam na Câmara dos Deputados – 76%

Não confiam no Governo (Executivo em geral) – 69%

Não confiam no Senado – 68%

 

Políticos do DF acreditam que existe crise de credibilidade

 

Apesar de alarmados, políticos do Distrito Federal acreditam que existem razões pontuais para o alto índice de rejeição da população com seus representantes. Pesquisa da UnB aponta que o descontentamento com os políticos chega a 86%. Para o deputado federal Rodrigo Rollemberg (PSB-DF), o desgaste provocado por inúmeras denúncias encobre o que é produzido de positivo pelos parlamentares para o País. "Essa pesquisa revela o momento de crise que passa a classe política, muito em função das denúncias e sensação de impunidade. Mas a falta de conhecimento do que se produz num parlamento concorre diretamente com esse índice", sugere o deputado.

 

O senador Cristovam Buarque (PDT-DF) admite que o elevado índice apontado pela pesquisa não surpreende. "Eu acho que há sim muita razão para essa descrença. Por duas razões: a mais imediata são as notícias e fatos de que a corrupção tem tomado conta da política. Mas a coisa maior é que por baixo dessa podridão, a engrenagem social brasileira está enferrujada. E nós, como líderes desse país, não estamos conseguindo lubrificá-la", teoriza o senador.

 

Ele vai mais além e acredita que tamanho descrédito pode despertar até mesmo uma mudança no regime de governo. "Se isso continuar, essa percepção se transformará em indignação, que se transformará em revolta. Isso abre a porta para um discurso autoritário ganhar força na opinião pública", prevê Cristovam Buarque.

 

Apesar da descrença, eleitorado acredita em mudança

 

Apesar da descrença em relação aos seus representantes, o eleitorado está esperançoso na melhoria da classe política. Dos 1.015 entrevistados em pesquisa realizada em abril pela Universidade de Brasília (UnB), 86% não confiam nos políticos. No entanto, 83% desse mesmo grupo acreditam que a corrupção pode ser combatida e outros 74% crêem na democracia.

 

O coordenador da pesquisa, professor Robson Pereira, mestre em Ciência Política, acha o comportamento do eleitorado reflete uma característica própria do brasileiro: a de ter sempre a esperança de que o quadro vá mudar. "Pior não dá pra ficar, né? Mas a gente acredita que o brasileiro tem uma esperança calada", diz o professor. Para ele, existe um certo grau de comodismo no brasileiro que, na sua opinião, tem uma fé inativa. Por isso, não se vê tanta mobilização para que esse índice de descrença seja reduzido consideravelmente. "Se a coisa está tão ruim, por que não temos avanços populares nas ruas? De uma certa forma, o brasileiro não se envolve com a política a ponto de sair do seu conforto", comenta Pereira.

 

O presidente do PT-DF, Chico Vigilante, avalia que a aposta do eleitorado em uma mudança é conseqüência do aperfeiçoamento das instituições democráticas no País. As pessoas estão no limite. Por outro lado, elas acreditam no trabalho que está sendo feito nas instituições. É o trabalho da Polícia Federal, do Ministério Público e dos órgãos de confiança do Executivo que fazem com que as pessoas tenham fé de que algo pode mudar", acredita Chico Vigilante.

Fonte: Correio Braziliense