Atualizado em :18/02/2012
A UnB e seus próximos 50 anos
Em artigo publicado no jornal Correio Braziliense, Rodrigo Rollemberg fala sobre os desafios da Universidade de Brasília para os próximos anos. Na sua avaliação, a UnB também deve chamar para si a responsabilidade de liderar a busca de relação adequada entre o DF e o Entorno
 
Foto: Agência BrasilA UnB nasceu da mesma utopia de Brasília. Da mesma força que mobilizou o país pela mudança e o compromisso com um projeto de vanguarda, universalizante e agregador. Cresceu com a capital e se aliou à vida pública não apenas como espaço de formação, mas também de criação, cidadania e circulação livre do pensamento. 

Uma história que traduz o espírito pioneiro de seus fundadores, intelectuais da estirpe de Darcy Ribeiro, Anísio Teixeira, Agostinho da Silva, Eudoro de Sousa e muitos outros. Todos mestres de um novo tempo da produção intelectual nacional, libertária, criativa e engajada em um projeto de desenvolvimento humano, com fortes aspirações democráticas. 

Na celebração de seus 50 anos, a UnB deve revisitar as suas origens para buscar sua orientação de futuro. A UnB é uma das instituições de maior credibilidade na capital e é estratégica para toda a nossa região. Por isso, é importante que ela tome a frente de um profundo processo de reflexão e formulação de soluções para os desafios das próximas décadas.

Não posso resistir à tentação de citar algumas possibilidades e começo pela formação e qualificação de professores de ensino básico, tarefa na qual a UnB tem dado grande contribuição. Investimentos nas licenciaturas e na integração entre ensino, pesquisa e extensão podem garantir a boa formação de professores e a permanente qualificação do corpo docente em serviço. 

A sinergia entre educação continuada, salários justos e condições dignas de trabalho para os professores, somada à grande mobilização da sociedade poderiam recuperar os fundamentos do projeto arrojado de educação implantado por Anísio Teixeira. A UnB é fundamental para que o ensino público do DF possa dar o salto de qualidade necessário para enfrentar os novos desafios éticos e tecnológicos que se colocam, de forma cada vez mais acelerada.

Também poderia liderar o processo de interação entre a comunidade científica e empresas no DF e no Centro-Oeste, compartilhando laboratórios, utilizando os benefícios da legislação federal e contribuindo para aprimorar a legislação local. A Universidade tem papel fundamental na extensão tecnológica, voltada prioritariamente para micro e pequenas empresas, e na implantação dos parques tecnológicos, sobretudo em áreas ligadas à saúde, tecnologia da informação, biotecnologia, biomassa e nanotecnologia. 

Assim a sociedade, aliada à sua Universidade, poderia criar um ambiente favorável à inovação e à distribuição de benefícios do desenvolvimento científico e tecnológico e, como há 50 anos, promover a segunda etapa da ocupação do Brasil Central, mas desta vez por empreendimentos sintonizados com a sustentabilidade ambiental.

A UnB deve chamar para si a responsabilidade de liderar a busca de relação adequada entre o DF e o Entorno. Entre os principais desafios, estão o desenvolvimento integrado dessa região, de forma a garantir qualidade de vida para todos e a reduzir drasticamente a enorme desigualdade social e a crescente violência. 

O planejamento urbano com os olhos voltados para as futuras gerações é outra tarefa importante, além de ser uma forma de trazer para a atualidade as diretrizes de ocupação planejada do solo. Por tudo isso, é preciso que a UnB busque cada vez mais se renovar em sua vocação transdisciplinar e laboratorial na promoção de um verdadeiro diálogo de saberes. 

Que ela possa reforçar a sua relação com Brasília, para que a cidade devolva à universidade a pertinência da sua produção de conhecimento. E que a UnB também possa repensar sua relação com a universalidade para, cada vez mais, transcender os saberes intramuros para interagir com os saberes da experiência feita, vinda das tradições, das culturas e das práticas legitimadas no cotidiano das diferentes comunidades do país.

Darcy Ribeiro dizia que, "em vez de ser mais uma universidade-fruto, reflexo do desenvolvimento social e cultural prévio da sociedade que a cria e a mantém, a UnB deverá ser uma universidade-semente, destinada a cumprir a função inversa, de promover o desenvolvimento”.

Realizar essa tarefa hoje pressupõe transformações no plano político que vão muito além das fronteiras da universidade. Que as palavras de Darcy sejam sempre um horizonte nesta caminhada. Que cidade e universidade possam caminhar juntas na busca de soluções para as necessidades do país. 

E que o caminho seja sempre o de aproximação da ciência com a realidade brasileira, em todos os seus processos de mudança e renovação.

Artigo publicado no jornal Correio Braziliense - 18.2.2012
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