Atualizado em :29/08/2011
Cora Coralina
Para Rollemberg, Cora Coralina sempre se mostrou à frente de seu tempo, assumindo posições e atribuições que normalmente não estavam reservadas às mulheres. Socialista argumenta, em artigo publicado no jornal O Popular, que seu ciclo de vida foi tão fecundo que a morte jamais conseguirá apagar a força de suas realizações.
 

"Creio nos milagres da ciência e na descoberta de uma profilaxia futura dos erros e violências do presente. Aprendi que mais vale lutar do que recolher dinheiro fácil. Antes acreditar do que duvidar” (Cora Coralina – Vintém de Cobre – Meias Confissões de Aninha, p. 156, 8°ed.1996).

Divulgação

Nascida no dia 20 de agosto de 1889, Ana Lins dos Guimarães Peixoto Brêtas, conhecida mundialmente pelo pseudônimo de Cora Coralina, era uma mulher do porvir, destemida, de ideias avançadas, que lutava por uma sociedade menos desigual, e que, sobretudo, amava o seu povo, a sua terra: a Cidade de Goiás, antiga Villa-Bôa de Goyaz, Patrimônio Cultural da Humanidade.

Cora ou Aninha (apelido para seu nome de batismo) sempre se mostrou à frente de seu tempo, assumindo posições e atribuições que, naquele Brasil de princípios do século passado, normalmente não estavam reservadas às mulheres. Postando-se ao lado dos mais fracos, ela se via impelida a batalhar por justiça, sobretudo em nome de mulheres historicamente condenadas ao silêncio por uma sociedade masculina e machista.

Sempre fui um profundo admirador de sua personalidade e de sua obra e tive o privilégio de conhecê-la, pessoalmente, e manter uma fraterna amizade com seus familiares. Posso afirmar, com convicção, que o otimismo era uma característica indissociável do caráter de Cora. Assim, para ela, o tempo presente era infinitamente melhor que o passado, da mesma forma que seria infinitamente pior que o futuro. Essa crença no amanhã, na perene esperança de um futuro que redima os homens de suas deficiências, era a seiva de que se nutria para celebrar a magia da vida.

Outro traço marcante da personalidade de Cora Coralina, que transborda em prosa e verso, é a crença na força do trabalho. Instrumento de humanização do próprio homem, o trabalho era, para a poetisa, o instrumento essencial para o incessante – e sempre inconcluso – processo de transformação da vida. Daí a linda visão de História que ela sempre cultivou: pelo trabalho, o mundo se reinventa a cada dia! E ela não se furtava dele: comercializou flores, foi dona de pensão, vendeu legumes, verduras e mudas de árvores e era uma cozinheira de mão cheia.

Poucos escritores brasileiros podem se ombrear com Cora Coralina na compreensão profunda do sentido da vida rural. Nascida num Brasil ainda muito preso à terra, mas tendo acompanhado a radical transformação conhecida pelo País ao longo do Século XX, simbolizada na rapidíssima urbanização, ela descreve a vida no campo de maneira fascinante. Um de seus mais conhecidos trabalhos, o Poema do Milho, é autêntica ode à terra e ao trabalho que nela se realiza. Na doçura dos versos, lá está a mais que perfeita simbiose entre o homem e o seu chão.

Cantando sua terra e sua aldeia, Cora foi intrinsecamente universal. Esgrimindo as palavras, conferindo-lhes o poder de traduzir valores e sentimentos que dignificam o ser humano, ela foi capaz de produzir uma obra literária que fala à alma. Felizmente, teve ela a oportunidade de, em vida, ser reconhecida e festejada por seu trabalho.

Que fique bem claro: o reconhecimento da importância do trabalho de Cora Coralina partiu de instituições culturais e governamentais, que se multiplicaram na oferta de prêmios e condecorações; passou por nomes consagrados de nossa cultura, a exemplo do poeta Carlos Drummond de Andrade, que fez questão de incensá-la publicamente; mas, sobretudo, chegou ao povo, a pessoas simples e comuns que também se extasiavam com seus textos.

Nada mais justo do que oferecer, na passagem dos seus 122 anos de nascimento, uma singela homenagem. No dia 22 de agosto deste ano, o Senado Federal, por sugestão minha, reverenciou e festejou a maravilhosa obra e a pessoa fenomenal que era Cora Coralina. Foram momentos únicos e especiais, que contaram com a presença de sua filha, Vicência Tahan Brêtas, além de netos e bisnetos da escritora.

Feliz a Nação que vê surgir de suas entranhas uma mulher tão especial como Cora Coralina. Seu ciclo de vida foi tão fecundo que a morte, ocorrida em 1985, jamais conseguirá apagar a força de suas realizações e a magia de sua obra poética. Cora Coralina está e estará presente para sempre. Mesmo porque, como ela própria acreditava: "Quando eu morrer, não morrerei de tudo. Estarei sempre nas páginas deste livro, criação mais viva da minha vida interior em parto solitário”.

Artigo publicado no jornal O Popular 

Fonte: