Atualizado em :09/11/2010
O recado das urnas
Em artigo publicado no jornal Correio Braziliense, Rollemberg afirma que o mais provável é que, nos próximos processos eleitorais, os eleitores irão exigir mais dos candidatos compromissos firmes com a transparência, a prestação de contas e a probidade
 
Foto: Sérgio FrancêsEstas eleições, mesmo antes da realização do segundo turno em plano nacional e em diversas unidades da Federação, já serviram para consolidar na agenda política do país o espaço de duas bandeiras fundamentais: a ética na política e a responsabilidade ambiental. Vistas em outros tempos como acessórias, uma e outra atuaram, desta vez, como importantes balizadores da decisão do eleitorado.

De norte a sul do país, candidatos identificados com a honestidade melhoraram o desempenho nas urnas. Com isso, a população prestou reconhecimento a quem, em sua trajetória política, primou pelo respeito à coisa pública e pela integridade moral.

O mais provável é que, nos próximos processos eleitorais, os eleitores exijam ainda mais dos candidatos compromissos firmes com a transparência, a prestação de contas e a probidade. Serão merecedores dos votos de parcelas crescentes do eleitorado os candidatos que conseguirem comprovar que entraram na política com o objetivo maior de trabalhar pelo país e por uma vida melhor para os cidadãos. Tudo indica que tenderá a ser cada vez menor o espaço dos que se valem da política para conquistar vantagens pessoais a contrapelo da lei.

Esse é, sem dúvida, um processo lento e contraditório de amadurecimento do eleitorado e fortalecimento dos valores associados à cidadania, o que se manifesta no fato de que, em todas as unidades da Federação, ainda conseguem se eleger pessoas comprometidas com a velha lógica do toma lá, dá cá; no entanto, temos todas as razões para crer que este é um processo irreversível.

Ao mesmo tempo, os eleitores deixaram claro que consideram a responsabilidade ambiental e o desenvolvimento sustentável como reivindicações de primeira grandeza. Nos últimos anos, ampliou-se significativamente o número de pessoas que compreendem que uma gestão adequada dos recursos naturais é garantia de boa qualidade de vida para todos.

Em virtude disso, ficou para trás o tempo em que a luta contra o aquecimento global, a defesa de medidas de adaptação às mudanças climáticas, a proteção da biodiversidade, a preservação das nossas matas e o manejo sustentável dos recursos hídricos eram bandeiras que mobilizavam o interesse apenas de uma minoria. A manifestação mais clara dessa nova maneira de encarar a questão ambiental foi a expressiva votação recebida pela candidata à Presidência Marina Silva. Seu desempenho em todo o país foi notável; mais notável ainda foi seu desempenho no Distrito Federal, onde recebeu nada menos que 42% dos votos válidos.

O fortalecimento da ética e da responsabilidade ambiental, entre os itens prioritários de nossa agenda política, revela que se tornou mais complexa e mais rica a forma como os brasileiros concebem o desenvolvimento.

É certo que não podemos menosprezar os sucessos obtidos nos últimos anos na área socioeconômica. Muito pelo contrário, o fim de mais de 20 anos de semiestagnação econômica e a melhora substancial na distribuição da riqueza são êxitos que devem ser comemorados com todo o entusiasmo. Mais que isso, os esforços pelo crescimento têm que continuar, assim como tem que continuar a luta pela justiça social, que tem ocorrido sobretudo por meio da ampliação da renda dos mais pobres. A manutenção dessa orientação deverá fazer com que, já na próxima década, o país erradique a miséria e constitua uma sociedade mais igualitária do ponto de vista socioeconômico.

Sabemos, porém, que não podemos crescer de qualquer forma, nem a qualquer custo. Já estava suficientemente claro que nossos esforços nas áreas de saúde, educação, segurança, moradia e transporte terão que ser intensificados e aperfeiçoados.

Além disso, adquirimos também a clareza de que é preciso assegurar um crescimento de nossa economia cada vez mais à base de tecnologias poupadoras de recursos naturais, sob pena de inviabilizarmos a qualidade de vida para as gerações futuras. É necessário também que nossa política seja cada vez mais marcada pelas condutas honestas e afinadas com a lei, em virtude do alto custo moral e econômico da corrupção.

Essa nova agenda do desenvolvimento, que mantém uma forte ênfase socioeconômica e, ao mesmo tempo, incorpora decisivamente as demandas ambientais e éticas, é o recado maior que os brasileiros enviaram por meio do voto no último 3 de outubro.
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