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O riso do bordado (Correio)

by Tarciso Nascimento last modified 2008-02-11 13:37

Artesãs brasilienses apresentam em São Paulo coleção de produtos com motivos gastronômicos

O riso do bordado (Correio)

Quando elas se reúnem para traçar novos projetos e as mãos começam a bordar, usam o máximo de criatividade e concentração. Foto: Cristiano Mariz/Especial para o CB

Adança sincronizada de agulhas e linhas deixa traços coloridos nos tecidos crus. Os bordados alegram as bolsas, aventais e panos de prato que fazem parte da nova coleção de um grupo de artesãs do Distrito Federal. Cerca de 300 artistas locais trabalham na finalização das peças que integram a coleção Na linha dos chefs de cozinha, inspirada na culinária de grandes cozinheiros do país. No fim do mês, os produtos seguem
para São Paulo, onde serão lançados.

As artesãs estão divididas em 23 grupos, todos ligados ao Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), que forneceu matéria-prima e consultoria às mulheres. Elas criaram 300 modelos de objetos que podem ser usados em toda a casa, como tapetes, pegadores de panela, portaguardanapos, puxadores de armário e luminárias. Tudo inspirado em legumes, frutas, talheres e outros itens comuns
às cozinhas.

As artesãs das equipes participaram de cursos nas cidades onde moram até dominarem as técnicas utilizadas
na produção das peças. No início de dezembro, elas passaram a se reunir em um prédio do Sebrae para
pensar e discutir a coleção. “Depois elas voltam para casa e multiplicam o conhecimento ensinando outras
pessoas da comunidade. Acompanhamos o grupo até que ele ande com as próprias pernas”, explicou a
gerente da Unidade de Empreendedorismo Social, Antonieta Contini. As alunas também aprendem a negociar com os clientes e formular as tabelas de preços. “Muitas se revelam líderes nesse processo. A vida delas muda, o relacionamento com a família melhora”, completou.

Inovações

Em uma pequena casa na Cidade Estrutural, a artesã Eliane Ramos, 42 anos, guarda os tecidos e as linhas coloridas usados na produção de bolsas, luvas culinárias, panos de prato e outros artigos de cozinha. Há um
ano, ela se uniu a um grupo de nove mulheres que faziam do bordado uma maneira de complementar a renda da família. A habilidade de domar as agulhas ela conquistou com o tempo, e hoje faz surgir maçãs, melancias e abacaxis nos panos crus.

“Gosto de fazer coisas modernas, que sejam bonitas e não muito caras. Aprendi esse dom com Deus e vou ensinando para quem pede”, explicou Eliane. A equipe da artesã criou oito modelos para a coleção do Sebrae. Elas pretendem fazer cinco unidades de cada tipo para levar à feira. Os bordados que fizeram Eliana enxergar uma profissão também a salvaram de um futuro.

Ela começou a se dedicar à técnica depois de vencer um câncer e entrar em depressão. “Minha psicóloga recomendou que eu procurasse algo para passar o tempo e eu fui bordar pedrarias em roupas de festa. Agora pretendo abrir uma ONG para ajudar mulheres que precisam”, disse.

A coleção é orientada pelo designer Renato Imbroisi, que avalia o trabalho das artesãs e as ajuda a aprimorar o desenho das peças. “Elas são ótimas bordadeiras. Estamos trabalhando no requinte dos detalhes, em deixar o bordado mais real”, explicou Imbroisi. O designer realizou oficinas com as mulheres para desenvolver
os traços dos desenhos e definir a identidade dos produtos.


Técnicas

Do enfeite de cabelo ao arranjo de mesa, passando pela luminária do criado-mudo. As flores artificiais criadas pela artesã Maura Lúcia Paiva, 43 anos, têm infinitas funções. A matéria-prima das peças é simples e barata: garrafas PET recicladas. Maura e as colegas do grupo recolhem as embalagens em casas de Planaltina, onde moram, e compram de catadores de lixo. Elas tingem e derretem o plástico, o que resulta em uma massa colorida e modelável para a confecção das pétalas e folhas. Uma garrafa tem plástico suficiente para duas flores pequenas.

A técnica foi elaborada por Maura e aprimorada pelo Sebrae, que também desenvolveu facas e máquinas para o corte do material. “Demora um pouco para aprender a fazer, mas todos aprendem. Já temos
12 pessoas no grupo e a tendência é expandir”, afirmou a artesã.

Imitando legumes, verduras e cogumelos, Luciene Alves dos Santos, 24 anos, moradora da Estrutural, cria
utensílios domésticos em biscuit — massa que endurece e pode ser pintada. Os descansos de talheres e portaguardanapos reproduzem quase fielmente os vegetais, mas a artesã demorou para chegar a esse nível de detalhe.

“Meu grupo trabalha há sete anos com isso. No início, era um biscuit mais básico, mais simples, a diferença na pintura era enorme”, lembrou. Com a ajuda de 14 amigas, Luciene pretende fazer 300 peças até o fim do mês.
Além dos objetos de cozinha, as artistas farão reproduções de pratos criados por chefes famosos especialmente para o projeto, como Alex Atala, Alice Mesquita e Salvatore Loi. Com bordados, biscuits e tapeçaria, elas recriarão as comidas. Os painéis contarão com as receitas detalhadas das invenções. A coleção está na  fase final e segue para São Paulo no fim do mês. Os trabalhos serão lançados na Paralela Gift, evento paulista de design que apresenta as novidades da área.


Formando talentos

As artesãs envolvidas na coleção Na linha dos chefs de cozinha fazem parte do projeto Empreendedorismo Social, fruto de uma parceria do Sebrae com o Ministério de Ciência e Tecnologia. São oferecidas oficinas de capacitação, assim como cursos de empreendedorismo.Durante o trabalho, são identificados os potenciais dos alunos e as técnicas em que cada um pode investir.

Os grupos participantes do projeto contam com o apoio do Sebrae para se consolidar e alcançar o nível de qualidade exigido pelo mercado.O órgão dá orientações na definição dos preços que devem ser cobrados, no controle dos gastos e na negociação com os clientes. Mais informações pelo telefone: 3362-1700.

Elisa Tecles - Correio Braziliense - 9/2/2008


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