A força dos APLs
José Eduardo Cassiolato, coordenador da RedeSist, destaca a importância dos arranjos produtivos locais, que inovam a partir da combinação de modelos tradicionais com tecnologias de ponta para resolver problemas sociais
“A questão dos APLs permite dispor de um instrumento, ao mesmo tempo analítico e político, que possibilita compreender nossas especificidades espaciais”, disse José Eduardo Cassiolato, coordenador da Rede de Pesquisa em Sistemas e Arranjos Produtivos e Inovativos Locais (RedeSist).
A utilização das tecnologias a serviço de uma efetiva melhora nas condições de vida da sociedade – e em particular das camadas mais desfavorecidas –, o papel do incentivo governamental às economias locais e a necessidade de sistematização de indicadores sobre os arranjos produtivos locais (APLs) são algumas das questões abordadas no Seminário Internacional “Dez Anos de Sistemas e Arranjos Produtivos e Inovativos Locais”, que termina nesta quarta-feira (28/11), no Rio de Janeiro.
Reflexões como essas motivaram a criação da RedeSist, que atualmente conta com pesquisadores brasileiros em quase todos os estados e em outros países da América do Sul, da América Central e da Europa. Em entrevista à Agência FAPESP, Cassiolato ressaltou que a inovação é um processo social que inclui a participação de atores diversos e que, portanto, não podem estar excluídos dos benefícios que a tecnologia pode oferecer.
Cassiolato é professor adjunto da Universidade Federal do Rio de Janeiro, professor convidado da Universidade de Rennes I, na França, e membro do comitê científico da Global Research Network on the Economics of Learning, Innovation and Competence Building Systems.
Agência FAPESP – Qual a importância dos arranjos produtivos e inovativos locais para o desenvolvimento social no Brasil?
José Eduardo Cassiolato – O Brasil é um país muito específico, com dimensões continentais e ampla diversidade. E é a partir dessas diferenças que temos feito o ponto mais forte da nossa nacionalidade. É preciso tratar a diversidade de forma positiva, não só para a nossa história como para nosso desenvolvimento econômico. A questão dos APLs é fundamental, porque permite dispor de um instrumento ao mesmo tempo analítico e político que possibilita compreender nossas especificidades espaciais. A dimensão política do estudo dos APLs favorece a compreensão das intervenções do Estado em benefício dessas economias locais e oferece uma forma de melhor direcioná-las. O país não pode se dar ao luxo de ter uma política única. O que não quer dizer deixar de ter uma política central, pois somos um país integrado, mas, para se beneficiar dessa diversidade, é preciso facilitar formas diferenciadas de intervenção.
Agência FAPESP – Como a RedeSist avalia o apoio governamental à diversidade das economias locais e inovadoras do Brasil?
Cassiolato – Por um lado, é extremamente importante que nos últimos quatro ou cinco anos o apoio aos APLs tenha passado a ser prioritário na agenda política brasileira, nos níveis federal, estadual e até municipal. São mudanças extremamente positivas. Junto a esse avanço, temos o fato de que as políticas brasileiras planejaram uma forma de intervenção sistêmica, que valoriza também a inovação. A inovação já vem sendo pensada como o principal mote da ação política no quadro atual do desenvolvimento brasileiro. Esse fato por si só é digno de ser ressaltado e o Brasil lidera, em escala global, essa forma de entendimento e de intervenção sobre as economias locais. Esse é um ponto positivo. Por outro lado, ainda há muito o que avançar na difusão do conceito dos APLs e na difusão da política implementada. Às vezes há situações em que velhos mecanismos políticos se vestem de apoio aos APLs e são implementados. É preciso observar esses problemas e minimizá-los.
Agência FAPESP – Quais seriam os principais exemplos de arranjos produtivos locais no país?
Cassiolato – É difícil falar em principais, pois isso seria utilizar um juízo de valor próprio para situações e arranjos muito complexos. É possível, no entanto, pensar que temos uma amplitude muito grande de situações e que cada uma delas abrange outras ainda mais específicas. Em áreas culturais fora do eixo Rio-São Paulo, temos observado eventos de peso, como o Festival Folclórico de Parintins, no interior do Amazonas, que gera importante conhecimento local que é levado a outras cidades e estados. O Carnaval no Rio de Janeiro é tido como o mais avançado do mundo em uma série de quesitos, tendo inclusive gerado acordos de cooperação tecnológica com os grupos da festa de Parintins relativos às técnicas de deslocar grandes figuras sem o auxílio de máquinas motoras. Na área social há muitos exemplos. No Ceará foi feito um estudo de caso de comunidades na região de Quixadá e Quixeramobim onde foram desenvolvidas, em parceria com a Universidade Federal do Ceará, tecnologias para a extração de águas em regiões profundas com a utilização do conhecimento local aliado a tecnologias de ponta. Essa mistura superou em muito tecnologias importadas.
Agência FAPESP – Esse intercâmbio de tecnologias e inovações também ocorre internacionalmente?
Cassiolato – Nossa proposta central desde o início foi compreender um pouco melhor o Brasil e, para tanto, temos estabelecido parcerias com pesquisadores em instituições de 23 estados. Nas reuniões da equipe, que ocorrem duas vezes por ano, são discutidos teorias e conceitos que permitem avançar na compreensão das mudanças que ocorrem no Brasil. Tenho me surpreendido cada vez que viajo pelo Brasil e vejo inovações que, em geral, estão fora da imprensa do eixo Rio-São Paulo. São inovações que utilizam tecnologias tradicionais com softwares e demais artifícios da alta tecnologia para resolver problemas sociais, como a escassez de água. Isso é um grande êxito.
Agência FAPESP – Há alguma estimativa de quanto capital circula nessas economias locais?
Cassiolato – Não há boas formas de mensurar os benefícios econômicos de uma série de atividades, particularmente nessas áreas de cultura e serviços. Realizamos recentemente um estudo de caso sobre a festa religiosa do Círio de Nazaré, em Belém. A pesquisa buscou investigar qual seria o impacto desse evento no PIB local e concluiu que, com a duração de uma semana por ano, a comemoração do Círio é responsável por mais de 10% do PIB da capital paraense. É fundamental que existam formas boas e adequadas de mensurar o impacto econômico e esse é um dos esforços da RedeSist e de seus parceiros. De toda forma, é inegável que estamos frente a uma situação espantosa no que se refere à produção de renda e de geração de emprego em atividades que são marginalizadas pelas estatísticas e pelas formas tradicionais de quantificar a economia como um todo.
Agência Fapesp - 28/11/2007
