*/ Senador de Bras?lia:DF vive em uma UTI cultural
 
http://twitter.com/rollembergpsb http://www.facebook.com/pages/Rodrigo-Rollemberg/211341845581927 http://www.orkut.com.br/Main#Profile?uid=3314995351568856873 http://www.youtube.com/rollembergpsb http://www.flickr.com/photos/rodrigorollemberg
 
Discursos
         
Tamanho do texto
Atualizado em :17/02/2014
DF vive em uma UTI cultural
 
Hoje quero falar do grave quadro de abandono da cultura – uma área estratégica, sempre deixada à margem das prioridades de governo e que precisa, definitivamente, retomar o seu lugar na agenda do desenvolvimento do DF.

Hoje, artistas, produtores, agentes e espaços culturais da cidade lutam para não serem varridos da história da cidade. Animam-se pela força dos seus trabalhos, mantidos sob decisão heroica, e sofrem, sobretudo, com a falta de políticas públicas articuladas e abertas a um diálogo livre com criadores e grupos.
  
Temos uma Secretaria de Cultura sucateada e deficiente na democratização dos investimentos em ações estruturantes; uma Secretaria refém da cilada dos eventos gigantescos, muitas vezes superfaturados, megapromocionais, que se esgotam em poucos dias e só deixam como rastro o privilégio dos poucos que participaram da festa e as suspeitas de superfaturamento.

Uma Secretaria que clama pela qualificação do seu quadro de profissionais, composto por excelentes servidores que necessitam de uma estratégia nítida para cumprirem suas funções em sintonia com a sociedade, em diálogo aberto e eficientes serviços.
  
Os espaços culturais estão abandonados. O MAB, que se arrasta na "herança maldita” de governos anteriores foi definitivamente abolido da vida da cidade, nem as exposições itinerantes do seu valioso acervo que deram circulação e possibilidade educativa existem mais. O espaço da 508 sul, chamado Renato Russo que se tornou Pontão de Cultura para articular outros Pontos de Cultura da cidade e que levantou Brasília nos anos 70 e 90, agora, está à míngua. O Polo de Cinema, às traças. O Teatro Cláudio Santoro, à deriva, cumprindo mais uma etapa de longas e intermináveis obras. Já a Biblioteca Nacional, inaugurada há sete anos, ainda continua uma obra inacabada, até hoje sem um acervo significativo, funciona, restritamente, como espaço para "sala de estudo”. 
 
Até mesmo o que funcionava bem, que eram as apresentações de músicos ao vivo nos bares, restaurantes da cidade, agora está sob censura. Desde 2008, quando foi aprovada a Lei nº 4.092/2008, artistas da cidade vêm perdendo o seu sustento e locais de apresentação, que fecham depois de receber altíssimas multas. A chamada Lei do Silêncio foi aprovada com limites bastante restritivos e acabou por proibir a realização de atividades que são parte de uma importante tradição musical de Brasília. Estive ontem com o movimento Quem desligou o som?, buscando construir um ambiente de diálogo para chegar a uma solução equilibrada, que permita que os músicos da cidade possam levar alegria à população, ao mesmo tempo, respeitando a população que mora próximo.
 
Dentro dessa UTI da cultura, o FAC – Fundo de Apoio à Cultura, é a conquista mais concreta dos artistas de Brasília. Mas até isso corre riscos! São constantes as tentativas do governo para meter a faca no FAC, para uso próprio e não para manter seu fim primordial destinado inteiramente para financiar a cultura feita pela sociedade. 
 
Recentemente as normas do FAC foram editadas e aprovadas sem uma discussão com sociedade, o que é muito grave, mas a ameaça maior está na Lei Complementar nº 872/2012, aprovada ao apagar das luzes, no final do ano passado, que dá poderes ao Executivo para remanejar e utilizar recursos do FAC em outras áreas do governo. Isso é um absurdo, além do contexto autoritário, trata-se de uma lei inconstitucional. Foi com muita dificuldade e com muita mobilização que movimento cultural do DF conseguiu aprovar, em 2008, a Proposta de Emenda à Lei Orgânica do DF, que vinculou 0,3% da Receita Corrente Líquida do Distrito Federal para o FAC. E agora querem acabar com essa conquista e abocanhar o pouco que o movimento cultural tem. 
 
Nos últimos anos, o FAC tem passado por intervenções constantes, como a utilização de seus recursos para atividades da própria Secretaria de Cultura. O GDF até tentou usar recursos do Fundo para o financiamento das festas de natal e ano novo de Brasília. Na ocasião, vim a esta tribuna para denunciar o fato. Mas chegar a este ponto de apropriação do FAC, isso é inadmissível, é um retrocesso, é jogar por terra a maior conquista institucional da cultura no DF.
 
Brasília é uma cidade que nasceu para ser vanguarda e está cada vez mais na retaguarda. A cidade nasceu para ser um grande polo cultural e intelectual do País. Uma cidade que abrigou e acolheu grandes nomes do País, como: Cássia Eller, Zélia Duncan, Renato Russo e a Legião Urbana, Santiago Naud, Oswaldo Montenegro, Wladimir Carvalho, Renato Barbieri, Renato Vasconcelos, Paulo Bertrand, Françoise Fourton; Rubem Valentin; Athos Bulcão; Hugo Rodas, só para citar alguns exemplos. 

Brasília soube abrigar os diferentes Brasis, criar sua personalidade própria, sua produção autêntica, antenada a tempos modernos – soube se projetar no País e no mundo com a sua arte e o seu pensamento. Esta força viva ainda está na cidade, ainda pulsa nas pessoas, na vida da capital.
 
É preciso que esta vida pulsante, este "espírito de Brasília" volte a ter o seu espaço, o seu lugar. Essa febre mobilizadora precisa voltar em sua essência. Estamos em outro tempo e a cidade terá outra linguagem, outra forma, outros atores, outras frentes de revitalização, mas, na base, estará sempre a decisão de não permitir que o sonho original seja citado apenas como vaga lembrança de uma utopia abortada.
 
O Distrito Federal só será, de fato, este polo cultural se souber valorizar seus artistas, se ofertar condições de acesso, equipamentos, estrutura, circuitos, formação e recursos para a cultura orientados por uma política pública inclusiva, democrática e permanente, concebida sob a ótica de Estado – e não pela instável conjuntura de governos.
 
Uma política pública que ofereça iguais condições e oportunidades a todos os que buscarem apoio do Estado. É urgente corrigir a cruel distorção histórica da concentração dos espaços culturais e equipamentos – como teatro, cinema, salas de espetáculo, etc – no Plano Piloto. Cada cidade do Distrito Federal deveria ter ao menos um espaço cultural equipado, seguro, de fácil acesso, com programação permanente, manutenção e pessoal, preços acessíveis e cursos com regularidade e continuidade – para fundamentar, na prática, a grande relação entre Cultura e Educação. 
 
A cidade exige respeito ao seu patrimônio imaterial presente na imensa diversidade de expressões da cultura popular manifestada por estéticas regionais de todo o País que aqui habitam.
 
A cidade exige respeito ao seu patrimônio tombado que corre riscos de sofrer humilhação internacional caso se confirme a possibilidade de Brasília perder o título de Patrimônio Mundial da Humanidade. As agressões do PPCUB a identidade cultural da cidade desonram um mandato e demonstram a dimensão de uma absoluta falta de compromisso com a cidade.
 
Um tempo novo para a Cultura é considerar a inovação tecnológica e a educação como fatores indissociáveis para o desenvolvimento da cidade. De um lado, a imensa rede de educação ainda não foi suficientemente explorada quanto ao seu potencial de produção e difusão de valores e práticas culturais. De outro, governo e sociedade ainda não assumiram, de forma efetiva, seu compromisso com a formação cultural e, também, com a cultura na formação dos brasilienses – em seus hábitos, gostos, opiniões e visões de mundo. 
 
A cultura pode se expandir expressivamente para além da arte, colocando o seu manancial simbólico e estético a favor do desenvolvimento educacional da população, assim como a educação pode se revelar muito mais profunda e eficaz se for além do ensino, assimilando o prazer, a criatividade, a imaginação e a estética no processo de aprendizagem. Realizar um mapeamento e uma cartografia das atividades culturais dos brasilienses ajudaria muito no planejar as ações de fortalecimento da economia criativa.
 
Já o avanço da tecnologia digital criou novas formas de produzir, distribuir e consumir cultura. Surgem novos modelos de negócio e novas formas de competição por mercados, nos quais a capacidade criativa ganha peso em relação ao aporte do capital. Nesse sentido, Brasília precisa de mecanismos diversificados de fomento e estratégias integradas para enfrentar os principais gargalos e aproveitar as oportunidades de se desenvolver e se projetar nos tempos de convergência digital.
 
É preciso fortalecer as cadeias produtivas da cultura e priorizá-las na agenda do desenvolvimento do DF. Brasília ainda não desenvolveu sua indústria cultural. Já fomos o terceiro maior produtor de filmes no Brasil e hoje somos o sétimo no ranking nacional, por exemplo. Temos cineastas altamente qualificados na cidade conectados com outras regiões e países que, muitas vezes, têm que ir embora da capital por não encontrar apoio, nem estrutura, para desenvolverem seu trabalho com condições de competitividade no mercado nacional e internacional. 
 
O Distrito Federal precisa de uma política distrital do audiovisual arrojada, calcada não só na produção, exibição e distribuição – mas também na preservação e na formação – com uma produção permanente e sistemática a partir de suas próprias infra-estruturas produtivas e pessoal técnico e artístico. Uma política que seja capaz de desenvolver o setor com estabilidade, afirmando-se como indústria criativa de expressão nacional e mundial.
 
Chegou a hora de Brasília oferecer estrutura e serviços – e não apenas recursos – para movimentar a economia do DF pela cultura. Não só com o cinema, mas com a música, o teatro, as artes visuais, a literatura, a cultura digital, a dança, o patrimônio.
 
A cultura é um dos mercados mais promissores da economia. Segundo pesquisa da OIT, nos últimos anos, o crescimento médio dos setores criativos (6,13%) no Brasil foi superior ao aumento médio do PIB nacional (cerca de 4,3%). Segundo o IBGE, o mercado cultural representa 5,7% das empresas do país, gera 8,5% dos empregos, além de ser o setor que melhor remunera, com média salarial 47% superior à média nacional. Os produtos culturais são hoje o principal item da pauta de exportações dos Estados Unidos e representam 8% do PIB da Inglaterra. Brasília, com sua imensa vocação cultural, precisa de uma política ousada para estimular os seus talentos e garantir o fortalecimento da chamada economia criativa.
 
A cultura deve ser protagonista na refundação da cidade, na retomada dos princípios fundadores da capital – e deve ser tratada transversalmente nas políticas públicas. A cultura está na saúde, na educação, na justiça, na ciência e tecnologia, nas comunicações, na segurança, em todos os setores estratégicos da sociedade. 
 
Tenho certeza, por exemplo, de que teríamos avanços significativos na política de segurança se estivesse contemplada a dimensão cultural. Tradicionalmente focada numa política criminal essencialmente repressiva, marcada pela disseminação de uma extraordinária demanda punitiva, a política de segurança deveria partir de uma visão mais ampla sobre violência, que considere a complexidade do problema enquanto patologia social, dimensionando suas diversas causas e consequências, e que envolva o conjunto do governo em ações transversais. Uma política com espaços institucionais permeáveis aos acúmulos produzidos pela experiência internacional e aberta às possibilidades de inovação, seja na reestruturação do modelo de polícia "constitucionalizado”, seja na adoção coerente de políticas e técnicas preventivas que passam pela educação, pelo atendimento digno a crianças e adolescentes, pelos serviços de saúde, pelo acesso à cultura e até pela qualificação da ação da polícia. 
 
Um cidadão que nasce privado de condições mínimas de sobrevivência e em contextos violentos deve passar por um verdadeiro processo de superação para não reproduzir o modelo em que está inserido. Paulo Freire costumava dizer que "não existe ética sem estética”. E quando esse cidadão cresce sem referências de afeto e respeito – e sob influência da visão massificada da violência reproduzida pelos meios de comunicação – a situação só se agrava. 
 
Mas um jovem que cresce e se educa vendo esgoto a céu aberto e criado sob estímulos negativos também podem dar respostas de cidadania e transformação se tiver acesso à cultura e a outras formas de estimulação criativa e solidária. 
 
Brasília se tornou uma das cidades mais violentas do País e boa parte desse enfrentamento está no combate à cultura da violência e na promoção de uma cultura de paz. Este é só um exemplo dos muitos que resignificam a cultura enquanto política pública e enquanto eixo estratégico para o desenvolvimento da capital.
 
A capital que pulsava em manifestações autônomas como o concerto Cabeças e o Grande Circular (ônibus e revista), o Festival do Gramado, o Sesc Garagem, os Porretas (coletânea de poetas) e as Ministéricas – dentre tantas outras – hoje continua viva. 
Brasília precisa recolocar em evidência as suas cabeças, que pensam, que criam, que fazem a cultura de uma cidade que não quer só pagar para ver cultura, mas que quer fazer e crescer pela cultura, em seu sentido maior de civilidade e cidadania, para além dos mercados e da arte comercial.
 
Capital vem de cabeça – que comanda e gere organicamente um corpo. Mas decapitar também – e se aplica sempre que uma utopia é abortada, traída ou, literalmente, decapitada. A cidade que foi construída para ser a sede de poder, e não a sede insaciável dos poderosos, também foi concebida para ser um verdadeiro polo de irradiação cultural e intelectual.
 
O que Brasília simbolizou e nos inspira ainda hoje é compromisso com um Brasil livre da submissão econômica, plural em sua diversidade, republicano e democrático, em oportunidades iguais. Que a capital possa valer-se deste potencial, do real espírito de Brasília, e reconstruir as suas bases, antes que seja tarde. Retomar essas forças não mais para uma construção física da maquete que precisava ser erguida; mas para uma radical reinvenção da cidade em todos os seus fundamentos fundadores. 

Fonte:
 
 
fazer comentario comentários
imprimir

 

Mais Discurso
A FACA DO FAC - [29/04/2014]
Dia do Artesão - [19/03/2014]

 
   Últimas Notícias
Cidadania
Rollemberg cobra nomeação de aprovados em concurso do Senado
Pesquisas
Rollemberg comenta pesquisa que aponta insatisfação dos brasileiros com questões básicas
Distrito Federal
Ministério Público e pesquisadores defendem manutenção da área da Embrapa Cerrados
Cidadania
Senado debate ameaça de retirada da Embrapa Cerrados
Política
PSB e Rede apresentam diretrizes de programa de governo para o DF
Ciência e Tecnologia
Embrapa inaugura Banco Genético e comemora os 41 anos da empresa
Política
Elogios a decisão do STF sobre CPI exclusiva para Petrobras
Distrito Federal
Rollemberg lembra aniversário de Brasília e prega o fim da desigualdade no DF
Política
Oposição indica servidor do Senado para vaga de ministro do TCU
Cidadania
Rollemberg: Datafolha revela declínio econômico resultante dos erros de Dilma
Educação
CPI com investigação ampla enfraquece o Legislativo, afirma Rollemberg
Meio Ambiente
Números de relatório sobre mudança climática do IPCC são alarmantes, alerta Rollemberg
PSB
Rollemberg explica posição do PSB em relação à CPI da Petrobras
Distrito Federal
Senador alerta para risco de criação de novas cidades no DF
Cidadania
Rollemberg defende regulamentação profissional de artesãos

Vídeo

 

footer_down_01