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Em defesa do etanol (Correio)

by Tarciso Nascimento last modified 2007-11-28 09:17

Documento pede fim de barreiras alfandegárias sobre o álcool e culpa ricos pelo aquecimento global

“Estamos jogando uma roleta russa com o futuro do nosso planeta”, alerta o britânico Kevin Watkins, autor do Relatório de Desenvolvimento Humano 2007/2008 — Combate à mudança do clima: solidariedade humana em um mundo dividido. As conclusões do documento parecem sustentar que o Brasil está longe de segurar o gatilho. O estudo do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) defende a taxação sobre emissões de dióxido de carbono (CO2), a criação de mecanismos rígidos de créditos de carbono e a adoção de leis nacionais mais duras em prol da transição para baixo carbono em transportes, construção civil e aparelhos eletrônicos.

O relatório demonstra que o destino da Terra está principalmente nas mãos dos mais ricos. “Não foram os pobres do mundo que criaram a crise climática, mas são eles que pagarão pela inércia e pela inação”, alerta Watkins. A ONU recomenda que as nações desenvolvidas, responsáveis por 70% das emissões, diminuam em 80%, até 2050, o lançamento de gases poluentes na atmosfera. A meta é ousada e, por enquanto, pouco factível. Países como Estados Unidos e Austrália ainda se recusam a se comprometer com objetivos avançados.

A meta proposta no documento depende de uma redução inicial de 20% até 2020. E de dinheiro. Os países ricos terão de gastar US$ 86 bilhões anuais, até 2015, para ajudar os pobres a responderem ao aquecimento global. A previsão agrada ao governo brasileiro, partidário de um maior empenho dos ricos para conter o fenômeno. Outro motivo de comemoração para o Planalto: o texto torna evidente a superioridade do etanol a base de cana-de-açúcar, do Brasil, em relação ao etanol de milho, dos Estados Unidos.

O etanol brasileiro é classificado como mais barato, mais eficiente e de maior impacto na redução das emissões. Segundo o Pnud, o ganho do etanol norte-americano é ilusório. Isso porque, em sua elaboração, o produto gera praticamente a mesma quantidade de dióxido de carbono economizada durante a emissão. A título de comparação, o álcool brasileiro emite até 70% menos gases de efeito estufa que os combustíveis fósseis. O produzido nos EUA reduz em apenas 13%.

Diante de tantas vantagens, o relatório pede o fim das barreiras alfandegárias impostas pelos países desenvolvidos ao etanol brasileiro. “Essa medida geraria ganhos não apenas para o Brasil, mas também para a mitigação dos efeitos das mudanças climáticas”, sustenta o documento. A União Européia (UE) taxa o etanol brasileiro em US$ 1 por galão, o que equivale a 60% do preço. Nos Estados Unidos, os impostos são de US$ 0,54 por galão. “Apesar de menor que a da União Européia, essa taxa ainda representa um aumento de cerca de 25% sobre o preço do etanol no mercado interno em 2007”, acrescenta o texto.

Ao desvincular a produção da cana-de-açúcar do desmatamento na Amazônia, o estudo do Pnud emite um parecer contundente: “Abolir as tarifas traria benefícios ao meio ambiente, à mitigação das mudanças climáticas e a países em desenvolvimento que, como o Brasil, desfrutam de condições favoráveis de produção”.

Durante o lançamento do relatório no Palácio do Planalto, o turco Kemal Dervis, administrador do Pnud, afirmou que a taxação sobre emissões de carbono precisa ser determinada pelo próprio mercado e elogiou a atuação brasileira. “Novas tecnologias, como a que o Brasil tem liderado, são a chave e o segredo da solução do combate às mudanças climáticas”, ressaltou. O documento não aborda um pedido explícito do governo brasileiro: para que nações em desenvolvimento sejam recompensadas financeiramente pela redução do desmatamento.

Catástrofe

Em uma de suas mensagens mais fortes no texto, a ONU alerta que o aquecimento global vai privar milhões de pessoas do desenvolvimento. As populações do delta do Rio Ganges, da África Subsaariana e do Nordeste do Brasil sofrem as ameaças mais imediatas. O resultado pode ser o prenúncio de uma catástrofe: inversões sistemáticas nas áreas de saúde, educação e economia frustrarão os êxitos obtidos para o cumprimento das Metas do Desenvolvimento do Milênio.

“Uma simples seca na Etiópia pode aumentar em 30% a probabilidade de crianças terem desnutrição cinco anos depois”, exemplifica Watkins. O relatório do Pnud lança também o conceito de orçamento global do carbono. A idéia é estabelecer a quantidade de CO2 que pode ser emitida sem aquecer o clima em 2 graus Celsius, um limite considerado perigoso.

Correio Braziliense - Rodrigo Craveiro - 28/11/2007 


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