O nosso desafio
“Administrar Brasília não é administrar uma cidade qualquer, mas uma cidade que já nasceu com pedigree , o que obriga a umas tantas limitações. A primeira condição para se administrar Brasília é gostar de Brasília; a segunda, é conhecer os planos; a terceira, respeitá-los” (Lúcio Costa)
A idéia de fundar uma capital, no centro do Brasil, é antiga e surgiu inicialmente com o Marquês de Pombal. Os inconfidentes também quiseram levar a capital para o interior do País, mas foi só com a Proclamação da República, em 1889, que a Constituição assegurou, em um de seus artigos, a determinação da mudança da Capital Federal para o Planalto Central. Fato consumado em 21 de abril de 1960.
A conjunção histórica que uniu numa mesma geração o grande estadista deste País, Juscelino Kubitschek, com o melhor arquiteto da história, Oscar Niemeyer, e o maior urbanista brasileiro de todos os tempos, Lúcio Costa, propiciou a criação de Brasília, uma cidade única, que se antecipa a sua própria época. A ousadia do plano urbanístico, aliado à beleza do traço arquitetônico e as funções políticas, econômicas e sociais, fizeram dela um lugar especial, um bem contemporâneo.
Em 1987, a cidade passou a ser considerada Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco e o seu conjunto urbanístico, arquitetônico e paisagístico tombado. Tenho orgulho de viver numa cidade-parque, toda arborizada e gramada, onde às pessoas passeiam sem atravessar as ruas e as crianças brincam em superquadras seguras. Quem vem a Brasília fica encantado e impressionado com o belo Lago Paranoá, com os palácios modernos, com os jardins floridos, com os parques arborizados e com o respeito da população às leis de trânsito.
No entanto, a nossa Capital demanda atenção e mobilização da comunidade para sua continuidade como herança cultural da dimensão universal. Brasília corre perigo. O que se tem observado é a progressiva degradação do Plano Urbanístico de Lúcio Costa. Nós temos a obrigação de impedir que a especulação imobiliária ou interesses menores venham deteriorar e deturpar a concepção original do Plano Piloto.
As invasões de áreas públicas, o excesso de veículos em circulação, os outdoors espalhados por todos os cantos e os puxadinhos nas quadras comerciais desafiam as regras do tombamento e acabam por descaracterizar o que fez da cidade patrimônio da humanidade. Em alguns lugares do Plano Piloto, até o livre ir e vir de pedestre está impedido por grades de ferro, paredes de alvenaria e portões eletrônicos.
Lúcio Costa afirmava que administrar Brasília não é uma tarefa fácil, pois a cidade nasceu com pedigree. “A primeira condição para se administrar Brasília é gostar de Brasília; a segunda, é conhecer os planos; a terceira, respeitá-los”, observava. Digo, sem titubear, que a maior ameaça ao tombamento é o crescimento acelerado do Distrito Federal. Todos os dias, pelo menos, 430 mil carros se dirigem ao Plano Piloto. Isso sem falar do tamanho da população, que já beira os 2 milhões de habitantes. O projeto de Lúcio Costa previa apenas 500 mil moradores na região.
O governo precisa estimular o desenvolvimento econômico das outras cidades do DF e não concentrar todas as atividades no Plano Piloto. Também deve defender uma política de manutenção preventiva aos monumentos e edifícios públicos e residenciais. Neste ano, em que se comemora o cinqüentenário da aprovação do Plano Urbanístico de Brasília e o vigésimo ano da titulação da cidade como Patrimônio Cultural da Humanidade, devemos tomar medidas mais enérgicas.
No Congresso Nacional, continuarei trabalhando em defesa desse patrimônio, que não é apenas brasileiro, mas da humanidade. Mário de Andrade certa vez disse que “defender o nosso patrimônio histórico e artístico é alfabetização”. Importa, pois, imprimir na consciência dos cidadãos, como algo insubstituível para a perenidade dos valores que enquadram a qualidade de suas vidas, a importância do fato histórico, social, ambiental e estético que é a Capital do Brasil. Manter as características originais de Brasília, que está em constante crescimento, é o nosso desafio.
