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Aquecimento global: desafios e oportunidades

by Tarciso Nascimento last modified 2008-06-06 10:45

O mundo tomou conhecimento assustado do alerta feito pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas – IPCC, em Paris. O planeta está aquecendo pela ação do homem e as consequências serão catastróficas, colocando em risco a própria sobrevivência da humanidade.

A grande responsabilidade pelo aquecimento é dos países desenvolvidos que emitem grandes quantidades de gases de efeito estufa (dióxido de carbono, metano e óxido nitroso) desde o início da Revolução Industrial.

Embora nossa responsabilidade pelo aquecimento atual seja pequena, em função de que nossas emissões são recentes, o Brasil já é o quarto emissor de gases de efeito estufa do mundo. Grande parte dessas emissões (75%) são provenientes da alteração do uso do solo, sobretudo  com desmatamentos e queimadas na Amazônia e no Cerrado.

Nos países desenvolvidos, a maior parte das emissões são provenientes da utilização de combustíveis fósseis. Já no Brasil 60% de nossa matriz energética é suprida por fontes renováveis, sendo que 90% da eletricidade brasileira é gerada por usinas hidrelétricas. Isso nos dá uma grande vantagem comparativa.
 
Primeiro porque para reduzir drasticamente nossas emissões não precisamos mudar nossa matriz energética. Segundo, porque ao conter o desmatamento, estaremos reduzindo drasticamente nossas emissões e preservando a biodiversidade, grande riqueza do futuro. Terceiro, porque seremos os grandes produtores de bioenergia para o mundo. Esse cenário mundial traz preocupações, grandes desafios e enormes oportunidades para o Brasil.

Existe um temor fundamentado de que o aumento da procura por álcool e biodiesel provoque alteração de preços desses produtos no mercado mundial e consequentemente uma enorme pressão de expansão da fronteira agrícola em novas áreas de cerrado e floresta amazônica. Isso nos colocaria na contraditória posição de fornecedores de biocombustíveis e destruidores da floresta e do cerrado.

Contudo, o Brasil possui algo em torno de 50 milhões de hectares de pastagens degradadas, que devem ser recuperadas e transformadas em fronteira ideal para elevar a produção de alimentos e biocombustíveis consorciados com a intensificação da pecuária de corte e de leite. A Embrapa já desenvolve tecnologias de integração lavoura-pecuária que precisam ser aperfeiçoadas, difundidas, financiadas e implantadas em larga escala.

Por outro lado, o Congresso Nacional precisa rediscutir o Código Florestal, ampliando as taxas de preservação (reservas legais) sobretudo em áreas de cerrado e de floresta amazônica.

Sei que esse tema sempre desperta enorme polêmica porém, mais do que nunca, precisamos construir novos paradigmas. Já é hora também de implantarmos mecanismos de incentivos financeiros aos produtores que preservem áreas maiores que as previstas em lei. No cenário mundial, o Itamaraty deve defender uma postura firme de criação de um fundo internacional que financie o desmatamento evitado. Internamente, o Brasil deve intensificar os investimentos em biotecnologia e  alternativas de desenvolvimento sustentável especialmente para a região amazônica.

Em visita ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE, pesquisadores daquela instituição, que coloca o Brasil no seleto grupo de países que desenvolvem tecnologias para o conhecimento do clima, duas propostas apresentadas chamaram a atenção de um conjunto de parlamentares: a elaboração de um grande inventário  nacional das vulnerabilidades provocadas pelo aquecimento global nas áreas de saúde, agricultura, zona costeira, biodiversidade, energia, etc, para identificar áreas de risco; e a constituição já iniciada pelo Ministério da Ciência e Tecnologia, de uma rede brasileira sobre mudanças climáticas, estimulando a pesquisa integrada nas áreas de climatologia, agricultura, saúde, economia, ecologia, engenharia, demografia, visando à geração de conhecimentos para informar o processo de tomada de decisões e para implantação de políticas públicas de mitigação e adaptação às mudanças climáticas.

Artigo publicado no jornal Correio Braziliense


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